Curiosidade

O país onde praticamente não existe mais dinheiro em espécie

Na China, o QR Code substituiu as cédulas há uma década — e até moradores de rua fazem parte dessa realidade

Por Diário do Mundo
O país onde praticamente não existe mais dinheiro em espécie

A China consolidou uma transformação financeira que ainda surpreende quem visita o país pela primeira vez: o dinheiro em espécie praticamente desapareceu da rotina cotidiana há cerca de dez anos, substituído de forma quase total por pagamentos digitais realizados por meio de código QR. O fenômeno vai além das lojas, restaurantes e transportes públicos. Ele alcança também as ruas — a ponto de moradores em situação de rua utilizarem códigos QR para receber doações de quem passa.

O relato foi compartilhado por um jovem empreendedor de segunda geração chinesa radicado na Espanha, entrevistado por Alejandra Andrade no programa "Fuera de cobertura". O depoimento foi publicado originalmente pelo portal espanhol Mundo Deportivo e despertou interesse por apresentar uma perspectiva pessoal e direta sobre como essa transformação digital afeta até as camadas mais vulneráveis da população.

Dinheiro em espécie ficou para trás

Segundo o entrevistado, a China é comunista apenas no nome. Na prática, ele descreve o país como um dos mais capitalistas do mundo, onde praticamente tudo gira em torno de negócios, dinheiro e acumulação de riqueza. Nesse contexto, as formas de pagamento acompanharam essa lógica e deixaram as cédulas para trás de forma acelerada.

O jovem usou o exemplo dos moradores de rua com QR Code para ilustrar o grau de penetração dos pagamentos digitais no cotidiano chinês. Para ele, trata-se de uma evidência de que a digitalização financeira não ficou restrita às classes mais abastadas ou às grandes cidades, mas se incorporou de maneira ampla e estrutural à sociedade como um todo.

Plataformas como Alipay e WeChat Pay foram os principais vetores dessa transformação, ao oferecerem sistemas simples, rápidos e amplamente aceitos que tornaram o ato de carregar cédulas algo progressivamente desnecessário. Hoje, realizar qualquer tipo de transação no país sem um smartphone e acesso a essas plataformas é, na prática, uma dificuldade real — inclusive para turistas estrangeiros.

Qingtian, a "Pequena Europa" da China

A reportagem do programa "Fuera de cobertura" também incluiu uma viagem à cidade de Qingtian, na província de Zhejiang. O município é conhecido pelos fortes vínculos com a Espanha e por abrigar uma das maiores populações hispanofalantes da China, formada ao longo de décadas por imigrantes que partiram para a Europa e por seus descendentes.

Qingtian é chamada de "Pequena Europa" justamente pela arquitetura predominantemente ocidental construída nas últimas duas décadas, resultado direto das remessas enviadas por emigrantes que prosperaram fora do país e investiram em imóveis e negócios na cidade natal. Durante a visita, a equipe do programa também encontrou uma escola de entalhe de presunto — atividade ligada à conexão cultural com a Espanha e à adaptação da comunidade local às tradições do país que acolheu gerações de imigrantes de Qingtian.

Uma mentalidade moldada pelo empreendedorismo

Antes de viajar à China, Alejandra Andrade visitou um restaurante em Usera, bairro de Madri com grande presença de imigrantes chineses, administrado pelo jovem de 27 anos que protagonizou a entrevista. Apesar de ter crescido em Madri e ter sido formado em contato direto com a cultura espanhola e ocidental, ele afirmou compartilhar em grande parte a visão de mundo de seus pais no que diz respeito a dinheiro, trabalho e futuro.

Para seus pais, trabalhar como empregado era algo quase impensável. A lógica era clara: como assalariado, a chance de acumular uma grande fortuna seria muito menor do que abrindo e gerenciando um negócio próprio. Desde cedo, em vez de jogar futebol no parque, o jovem ajudava a família nas entregas do restaurante — uma rotina que, segundo ele, moldou profundamente sua relação com o trabalho e com o conceito de responsabilidade financeira.

Ele também relatou que seus pais tinham uma visão muito definida do que significava uma vida bem-sucedida. Esperavam que ele comprasse um apartamento, tivesse um carro de qualidade e fosse dono de um negócio. Viver com menos de 5.000 euros mensais era visto por eles como algo próximo da indigência — uma perspectiva que contrasta fortemente com a realidade da maioria dos jovens europeus, mas que reflete uma mentalidade de acumulação e ascensão social muito enraizada entre os imigrantes chineses de primeira geração.

Esse choque cultural entre a visão de mundo herdada dos pais e a realidade do cotidiano espanhol é um dos elementos mais reveladores da reportagem. Ele ilustra como a diáspora chinesa carrega consigo não apenas hábitos e tradições, mas também uma relação com o dinheiro — e com formas de lidar com ele, sejam cédulas ou códigos QR — que continua influenciando gerações mesmo a milhares de quilômetros da China.

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