Colapso de uma montanha provocado pelo recuo de geleiras gerou uma onda gigantesca de 481 metros no Alasca, reacendeu preocupações sobre os impactos do aquecimento global e levou especialistas a reforçar alertas para regiões costeiras em todo o mundo.
O turismo náutico no Alasca passou por uma reconfiguração operacional urgente após um tsunami de proporções históricas atingir o fiorde de Tracy Arm em agosto de 2025. A onda, que alcançou 481 metros de altura — o equivalente a uma vez e meia a Torre Eiffel —, foi gerada pelo colapso de uma montanha que, sem o suporte de uma geleira em recuo, despencou sobre as águas do fiorde e provocou deslocamentos de massa comparáveis ao peso de 24 Pirâmides de Gizé. O fenômeno forçou seis empresas de cruzeiros a buscarem rotas alternativas para a região.
O estudo sobre o evento foi conduzido pelo Dr. Dan Shugar e publicado na revista Science com contribuições de pesquisadores da University College London (UCL).
O colapso e seus efeitos imediatos
O megatsunami ocorreu às 5h30 da manhã, em um momento em que a maioria dos visitantes da região ainda dormia. Embora nenhum navio de grande porte tenha sido diretamente atingido pela onda principal, as águas do fiorde ficaram extremamente agitadas logo após o colapso, segundo relatos de tripulantes de uma embarcação que estava ancorada na entrada do fiorde.
O impacto mais dramático foi sentido por um grupo de caiaquistas acampados em terra firme. Por volta das 5h45, eles foram acordados por uma inundação repentina que arrastou barracas e equipamentos de acampamento. A velocidade e a intensidade do fenômeno não deixaram tempo de reação — o que reforça a preocupação dos pesquisadores com a segurança de turistas em regiões de geleiras em recuo.
Sinais invisíveis que antecederam o colapso
Uma das conclusões mais relevantes do estudo conduzido pelo Dr. Dan Shugar é a de que o colapso não apresentou sinais visuais óbvios nas semanas anteriores. Não houve as rachaduras superficiais típicas de outras avalanches nem quedas menores que costumam preceder eventos de grande escala. O que a análise técnica revelou foram pequenos terremotos registrados nos dias anteriores ao deslizamento, indicando que a estrutura interna da montanha estava sob estresse crítico sem que isso fosse perceptível na superfície.
Outro fator determinante foi a perda de apoio glacial: a geleira que sustentava a base da montanha havia recuado cerca de 500 metros nas semanas anteriores ao colapso. Sem esse suporte, a encosta ficou estruturalmente instável. A combinação de instabilidade interna e ausência de base de suporte criou as condições para o colapso súbito e de grande escala.
A conexão com o aquecimento global
Os pesquisadores são enfáticos ao associar o evento ao aquecimento global. O Dr. Stephen Hicks, coautor do estudo publicado na UCL, explica que o recuo acelerado das geleiras transforma áreas que antes eram estáveis em zonas de risco, ao remover o suporte físico que mantinha encostas e formações rochosas em equilíbrio por séculos.
O dado preocupa especialmente porque o turismo em regiões glaciais cresceu significativamente nos últimos anos. Áreas que antes eram consideradas seguras para cruzeiros, caiaque e ecoturismo de montanha passam a exigir reavaliação constante de risco à medida que o gelo recua. O que era um cenário de beleza cênica pode se tornar rapidamente uma zona de instabilidade geológica.
Um alerta global: o Mediterrâneo como próximo cenário
O megatsunami no Alasca funcionou como um laboratório natural para previsões em outras partes do mundo. Com base nos dados do evento, especialistas afirmam com alto grau de certeza que uma onda de grandes proporções deverá se formar no Mar Mediterrâneo nos próximos 30 anos. Ao contrário da região remota do Alasca, um evento no Mediterrâneo poderia atingir o sul da França em apenas 10 minutos após sua formação, com impacto potencial sobre populações costeiras densamente habitadas.
Esse cenário reforça a urgência de investimentos em sistemas de monitoramento modernos. Os pesquisadores sugerem que tecnologias capazes de identificar abalos sísmicos prévios ao colapso podem oferecer uma janela de aviso de horas ou até dias — tempo suficiente para evacuar áreas de risco e reposicionar embarcações. A tragédia evitada no Tracy Arm pode, assim, servir de referência para motivar autoridades e empresas do setor a adotarem medidas preventivas antes que o próximo evento aconteça em um cenário muito mais populoso.