Escavação subaquática na baía de Abu Qir recuperou esculturas monumentais, moedas e estruturas portuárias da antiga cidade de Canopus, revelando novos detalhes sobre uma das mais importantes civilizações costeiras do Egito antigo.
Uma equipe de mergulhadores e arqueólogos subaquáticos recuperou da baía de Abu Qir, próxima a Alexandria, no Egito, um conjunto de artefatos vinculados às ruínas submersas da antiga cidade de Canopus. A operação, realizada em 21 de agosto de 2025 e divulgada por autoridades egípcias, trouxe à superfície peças de diferentes períodos históricos: uma estátua de granito de uma figura ainda não identificada, datada do fim do período ptolomaico, uma esfinge de quartzito com o cartucho do faraó Ramsés II e uma escultura de mármore associada a um nobre romano. Além das esculturas, foram retiradas moedas, cerâmicas, fragmentos de calcário e estruturas ligadas a antigas instalações portuárias.
Uma cidade que o mar engoliu gradualmente
Canopus era uma das cidades mais importantes da costa egípcia, localizada no delta do Nilo, a poucos quilômetros do que hoje é Alexandria. Ao longo dos séculos, partes da cidade foram progressivamente submersas pelo Mediterrâneo como resultado de uma combinação de fatores geológicos — terremotos, subsidência do terreno, liquefação do solo e variações no nível do mar — que foram transformando a paisagem costeira de forma irreversível.
Esse processo não foi um episódio único, mas uma transformação gradual que levou décadas ou séculos para se completar. Espaços urbanos, templos, docas e ruas que um dia foram frequentados por comerciantes, peregrinos e autoridades da Antiguidade foram sendo engolidos pelas águas até se tornarem sítios arqueológicos submersos.
A baía de Abu Qir é considerada pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito uma das áreas de maior relevância para a arqueologia subaquática do país. O local concentra vestígios não apenas de Canopus, mas também da cidade de Thonis-Heracleion e de naufrágios de diferentes épocas, incluindo embarcações ligadas à frota de Napoleão destruída na Batalha do Nilo, em 1798.
Os artefatos e o que eles revelam
A peça mais imponente da operação foi a estátua de granito de uma figura ainda não identificada com segurança pelas autoridades egípcias. A escultura estava danificada na região do pescoço e dos joelhos e foi atribuída ao fim da era ptolomaica — período compreendido entre 332 a.C. e 30 a.C., quando o Egito foi governado por uma dinastia de origem macedônia fundada por um dos generais de Alexandre, o Grande. O içamento da peça demandou mergulhadores especializados, arqueólogos e equipamentos adequados para a retirada de objetos pesados do leito marinho sem causar novos danos.
A esfinge de quartzito com o cartucho de Ramsés II é outra peça de destaque. Ramsés II reinou entre 1279 a.C. e 1213 a.C. e é considerado um dos faraós mais poderosos da história do Egito. A presença de objetos com seu nome em uma cidade que atingiu seu apogeu séculos depois de seu reinado mostra que o legado de Ramsés atravessou épocas e continuou sendo referenciado em representações artísticas e religiosas posteriores. A escultura de mármore branco associada a um nobre romano completa o conjunto e evidencia que Canopus teve ocupações sucessivas, de diferentes culturas, ao longo de sua história.
Canopus: religião, comércio e influência no mundo antigo
Antes de desaparecer sob as águas, Canopus era conhecida principalmente por seus santuários ligados ao culto de Osíris e de Serápis — divindade que combinava elementos egípcios e gregos, criada durante o período ptolomaico para aproximar as tradições religiosas das duas culturas. A cidade recebia peregrinos de toda a região mediterrânea que participavam de rituais associados à cura e à devoção.
Sua posição no delta do Nilo também fazia dela um ponto de passagem relevante para rotas comerciais marítimas. O contato entre tradições egípcias e influências gregas e romanas resultou numa mistura cultural visível nos artefatos encontrados no sítio: esfinges de faraós convivem com esculturas de personagens romanos, moedas e instalações portuárias que apontam para uma cidade integrada às redes de comércio do Mediterrâneo antigo.
Por que apenas algumas peças são removidas
O ministro do Turismo e Antiguidades do Egito, Sherif Fathi, explicou à AFP que, apesar da abundância de material no fundo da baía, a recuperação se limita a peças selecionadas por critérios técnicos. Essa prática reflete uma orientação cada vez mais consolidada na arqueologia subaquática contemporânea: em muitos casos, manter os objetos no local de origem preserva o contexto arqueológico e evita riscos de degradação que a retirada poderia provocar.
A estratégia de preservação in situ depende, porém, de monitoramento contínuo e proteção contra saques, impactos ambientais e deslocamentos causados por correntes. Na baía de Abu Qir, a remoção seletiva de peças faz parte de um projeto de valorização do patrimônio submerso egípcio, com perspectiva de que parte do material venha a ser restaurado e exibido em museus.
Sedimentos, danos e o desafio de interpretar o que restou
A conservação dos objetos submersos ao longo dos séculos dependeu de uma série de fatores: profundidade, tipo de sedimento, salinidade da água e composição dos materiais. Quando cobertos por areia ou lama, artefatos ficam parcialmente protegidos de correntes, impactos e variações ambientais. Isso não significa, porém, que permaneceram intactos. As esculturas recuperadas apresentam quebras, partes faltantes e marcas de desgaste que os arqueólogos também utilizam como fontes de informação, pois indicam colapsos, deslocamentos do terreno ou impactos ocorridos durante ou após a submersão.
O trabalho arqueológico subaquático busca interpretar esse conjunto de evidências. Fragmentos de estátuas, estruturas portuárias, docas, cisternas e reservatórios permitem reconstruir aspectos da organização urbana e religiosa de Canopus — uma cidade que deixou de existir na superfície, mas que permaneceu preservada em parte sob as águas do Mediterrâneo, aguardando o momento em que a ciência tivesse os meios para ler o que ela guardava.